Estava fazendo uma "limpa" para arrumar espaço para alguns livros e me deparei com estas preciosidades da foto.
Confesso que fiz uma viagem no tempo e, deste acervo, o que me deixou mais saudoso foram "Clipper 5.2d" e o "Norton Guide".
Todos foram devidamente copiados há alguns anos, mas mantive os disquetes pelo seu valor sentimental. Como não consigo imaginar sequer a possibilidade de encontrar um leitor de disquetes, seus "corpos" serão "doados" para estudos da balística do tiro com arco. Até tenho um disk-drive na minha caixa de "sucata tecnológica", mas duvido que funcione...
Mas uma coisa que me veio à cabeça neste "encontro inesperado", foi a evolução tecnológica que houve de lá para cá. Programávamos no bom e velho DOS, que nos permitia apenas uma tela de texto (eventualmente colorida) com 80 colunas e 25 linhas, 640Mb (Megabytes e não Gigabytes) de memória e, se você fosse (ou conhecesse) um programador experiente, poderia usar a memória "alta", que dava mais algus Mb para uso, mas só através de configurações muito específicas do DOS e algumas "malandragens" no código.
Não crianças, o DOS não é aquela telinha preta dentro do Windows, era um Sistema Operacional de verdade e o Windows era "somente" uma interface gráfica que rodava sobre o DOS para tornar o uso dos computadores mais acessível às pessoas "leigas" naquela época.
Por conta disso (pessoas leigas daquela época), estou partindo da premissa que pouca gente entendeu os dois parágrafos anteriores, hehehehe...
Depois de toda esta "viagem no tempo", minha reflexão foi justamente esta: hoje em dia, mesmo pessoas da área de TI, mais especificamente "programadores" (já já vocês vão entender as aspas), também não fazem idéia do que estou falando!
Naquela época, não tínhamos Internet, muito menos o Google. O mais próximo disso, eram as BBS's (Bulletin Board System), que funcionava mais ou menos como os fóruns de hoje: você coloca uma pergunta lá e verifica de tempos em tempos se alguém respondeu. A resposta mais comum era "estou com o mesmo problema", hehehehe...
Eram tempos de conexão discada, havia a necessidade de assinaturas de pacotes de serviços, acessos, quotas de navegação e, claro, a conta do telefone, que era o preço de uma ligação normal e que te mantinha com a linha ocupada. Ou seja, a verificação "de tempos em tempos" não era tão frequente assim...
Os desafios eram superados única e exclusivamente com conhecimento profundo das linguagens de programação disponíveis na época e a criatividade/malandragem dos programadores. E só! Era fácil separar os homens dos meninos, hehehehe...
Hoje está tudo bem mais simples. Basta colocar uma mensagem de erro no Google que recebemos milhares de respostas e em alguma delas (normalmente já na primeira página) está o detalhamento do que está acontecendo, das causas e um código de exemplo da solução.
Veja bem, não estou dizendo que isto é ruim, muito menos que não deveria ser assim, entretanto, com a inclusão digital, todo o conhecimento humano está ficando mais acessível (como deveria ser) e isto sim gera algumas preocupações. Pelo menos pra mim...
Quantas pessoas não recorrem ao YouTube para procurar instruções sobre coisas que não dominam, tais como trocar uma lâmpada da lanterna do carro ou as pastilhas de freio de uma moto? Eu mesmo fiz isso no fim do ano passado porque queria uma receita de atum com crosta de gergelim. E saiu! Confesso que o sabor ficou melhor que o aspecto, mas saiu. Como um chimpanzé treinado, segui as instruções cegamente e "deu certo" (com alguns ajustes).
E é justamente este o problema! O fato de que o conhecimento está mais acessível está solidificando uma cultura em que é mais fácil perguntar milhares de vezes do que "perder tempo" aprendendo o conceito e se aprofundando no contexto. Não há problema algum, se estivermos falando de hobbies ou simples curiosidade, mas a coisa fica grave quando falamos em profissionais que, supostamente, deveriam conhecer suas áreas de atuação. É necessário se aprofundar no assunto, no mínimo para saber se aquela informação está correta ou não! Qualquer um com um celular pode gravar um vídeo e postar aquilo como verdade absoluta hoje em dia.
Quem convive comigo sabe que faço algumas comparações extremas, para ilustrar até onde a situação pode ir. Imagine que você caia da bicicleta e, por uma eventualidade pra lá de imprevista, você sofra um tipo muito bizarro de torção ou fratura. Por ser uma situação "inédita" para o seu médico, ele procura algo parecido no YouTube e decide que tem que operar o seu tornozelo com um notebook e uma enfermeira a mais, só para dar pausa ou voltar o vídeo enquanto você está sob o efeito da anestesia na mesa de cirurgia, porque ele nunca viu uma torção dessas antes...
E aí? A solução continua sendo válida?
Vou voltar a falar de programação, mas o conceito serve para todos os aspectos da vida na Terra: se um programador "de hoje" precisa pintar uma letra "B" de azul na tela, ele vai procurar no Google como pintar a letra "B" de azul, vai encontrar um código de exemplo, vai copiá-lo e colá-lo no programa e rodar uma vez. Se funcionar de primeira, "deu certo" e não se fala mais nisso. Se não funcionar, ele vai procurar outro código e assim sucessivamente até encontrar um que funcione.
Um programador mais experiente (não vou escrever, mas pensei "mais velho", hehehehe), vai procurar como pintar uma letra "B" de azul na tela. Vai estudar o conceito e vai desenvolver uma rotina que "saiba" pintar a letra que ele quiser, da cor que quiser, sob as condições que quiser e ainda irá fazê-lo de um jeito que novas melhorias possam ser facilmente implementadas, como a letra poder piscar ou mudar de tamanho, por exemplo. Sim, EU faço desse jeito.
[disclaimer ON]
Sim, estou generalizando! Conheço programadores com pouco mais da metade da minha idade e escrevem programas que me deixam de queixo caído de tão sofisticados. Mas são a exceção que confirma a regra.
[disclaimer OFF]
Esta diferença de abordagem pode ser motivada por chavões como: "o ótimo é inimigo do bom" ou "temos que mostrar agilidade". Na minha opinião, não se justifica.
Seja do programador em não querer se aprofundar porque "o código do Google funcionou", alguma orientação "de cima pra baixo" onde a solução "tem" que ser rápida e não necessariamente estruturada e o decisor não está preocupado com o esforço necessário para arrumar esta gambiarra (ou "workaround" como alguns preferem dizer) mais tarde, caso a solução tenha que sofrer alguma variação. Ou simplesmente deu alguma merda e é preciso apagar o incêndio. Neste úlitimo caso, esta orientação vem acompanhada de uma promessa de "revisar isso depois que a coisa se acalmar". Eu mesmo já fiz esta promessa, mas me certifiquei de voltar lá e refazer o ajuste.
Todo mundo diz "antigamente as coisas eram feitas para durar, hoje é tudo descartável" (eu inclusive), mas a verdade por trás desta frase é que a nossa sociedade está preferindo o caminho mais curto e "se der algum problema, depois vê".
Tenho certeza que ocorre o mesmo em outras áreas do conhecimento, segmentos de mercado ou aspectos pessoais. Então, na minha opinião, isto mostra uma tendência de comportamento que irá se acentuar nos próximos anos.
A informação não pode ser mais valiosa que o conhecimento. Simplesmente porque desta forma, perde-se a capacidade de flexibilização, de improviso, de evolução. Não estou dizendo que isto deirxará de existir, mas é a mesma coisa que colocar rojões em um par de patins e chamar isso de propulsão à jato. Para se alterar algo que já existe, é de bom tom dominar o(s) assunto(s) em questão. E querer evoluir por "tentativa e erro" sem dominar o assunto, pode trazer consequências drásticas. Em alguns casos, TOMARA! Hehehehehe...
Estranhamente, as mesmas pessoas que defendem este estilo de vida imediatista são as que fazem ultrapassagem pelo acostamento mas reclamam do trânsito e das multas, jogam lixo nas ruas mas reclamam das enchentes, não abrem mão de lavar o carro em casa toda semana e/ou empurram papel de bala da calçada com a mangueira de água mas reclamam da escassez depois. E, por serem imediatistas, não vêem relação alguma entre a causa e o efeito.
Ou seja, além do conhecimento e da capacidade de analisar cenários e tirar conclusões, a educação e a capacidade de convivência em sociedade também estão se perdendo. E isto me parece ser uma escolha, até certo ponto, consciente.
Então bicho, é como digo quase diariamente no meu departamento:
- Rápido
- Bonito
- Barato
Escolha só DOIS e não reclame mais tarde!
PS: foi mal, não era pra ter ficado tão longo, mas os disquetes me deram muito no que pensar, hehehehe...